Do paraíso ao caos: o que mudou no Fluminense desde o título inédito da Libertadores em 2023
4 de novembro de 2023 pode ser uma data qualquer para muita gente. Mas para o torcedor do Fluminense, trata-se de um dia eterno, catártico, para sempre associado a uma das maiores alegrias já vivenciadas pelo clube das Laranjeiras (e sua gente) em sua centenária existência: há exatamente um ano, o Tricolor Carioca conquistava a América pela primeira vez, exorcizando em definitivo o “fantasma” de 2008 e erguendo a tão sonhada Conmebol Libertadores.
Marcado por grandes exibições coletivas, duas taças conquistadas (Carioca e Libertadores) e o vice-campeonato no Mundial de Clubes, o ano de 2023 ficou gravado, nas mentes e corações, como a “temporada dos sonhos” para o torcedor tricolor. Contudo, apenas 365 dias depois de alcançar a Glória Eterna, o Fluminense se vê em um contexto completamente oposto e contrastante ao dia quatro do mês onze passado: eliminado das copas e ameaçado pelo rebaixamento no Brasileirão, o único objetivo remanescente para o clube em 2024 é a permanência na elite, ambição modesta que não faz justiça à quem ostenta, ao menos até dia 30/11, o status de atual campeão da América.
Mas como explicar uma mudança tão drástica de realidade? O que aconteceu nas Laranjeiras desde o título inédito da Conmebol Libertadores, celebrado no Maracanã há exatamente um ano? A seguir, o 90min tenta encontrar respostas para este Fluminense “de contrastes”, que foi do paraíso ao caos, do céu ao inferno, em apenas 365 dias.
Por ter vencido a Conmebol Libertadores da temporada anterior com um elenco de alta média etária e recheado de jogadores “desenganados”, o Fluminense tentou repetir a receita em 2024, envelhecendo ainda mais o seu plantel com as chegadas de Renato Augusto (36 anos), Douglas Costa (34), Felipe Alves (36), Gabriel Pires (31) e Antônio Carlos (31), investidas modestas para quem pretendia competir por títulos em 2024.
O primeiro mercado de transferências do campeão da América acabou, com o passar do tempo, se comprovando como um fracasso retumbante: dentre os nomes citados, nenhum conseguiu vingar ou se estabelecer como titular, e alguns deles já até deixaram as Laranjeiras.
Dentre os muitos erros de avaliação e atuação do Tricolor Carioca na janela inaugural do ano, o principal deles foi, sem sombra de dúvida, não ter investido em uma reposição de peso para Nino. O clube parece ter subestimado o enorme impacto do zagueiro e seu papel para o bom funcionamento do time no estilo de jogo de Diniz. Somente oito meses depois, com a chegada de Thiago Silva, o Fluminense voltou a ter, em campo, um defensor de peso técnico e qualidade no passe.
Em virtude da disputa do Mundial de Clubes ao final de 2023, o elenco principal do Fluminense se reapresentou tardiamente (última semana de janeiro) para a realização da pré-temporada em 2024, tendo apenas um mês para se preparar para a primeira grande final de seu calendário no ano: a revanche contra a LDU, de Quito, valendo o título da Recopa Sul-Americana.
Foram quatro semanas de atividades intensas visando ter o plantel titular em boas condições de jogo diante dos equatorianos, objetivo atingido pelo Tricolor Carioca, mas com um custo alto para o decorrer da temporada: a sobrecarga de treinos e a falta de tempo hábil para uma pré-temporada mais completa culminou na disparada no número de lesões deste grupo de jogadores, que em 2023, teve como grande virtude o fato de ter conseguido se manter saudável.
Janela equivocada, pré-temporada apressada, lesões em profusão… Todos os pontos anteriores colaboraram para um ano difícil para o Fluminense, mas nada foi tão nocivo quanto a acomodação causada pelas conquistas de 2023. Montar um elenco vencedor e erguer troféus ajuda no processo de construção de uma mentalidade vencedora, mas esta terá tempo de validade curto se não for regada e alimentada constantemente – um dos clubes que faz isso muito bem é o Palmeiras de Abel Ferreira, que mantém a fome de taças alta, ano após ano.
Além de “baixar a guarda” em seu espírito competitivo, o Tricolor Carioca perdeu uma das coisas que era sua aliada em 2023: o fator novidade. Adversários passaram a entender como neutralizar todas as virtudes do estilo de jogo de Diniz e aprenderam, também, a como explorar suas vulnerabilidades. Era o momento de fazer adaptações, buscar alternativas e mostrar repertório, algo que o treinador não conseguiu extrair do grupo com 2024 em andamento.
Mas a culpa, obviamente, não pode ser delegada somente ao comandante: a desmobilização de referências do elenco em 2023, como John Kennedy e Marcelo, e a atuação bastante questionável da diretoria na gestão do futebol – com direito ao pedido de demissão de Fred, então diretor de planejamento esportivo do clube, no auge da crise tricolor em 2024 –, também foram cruciais para o desenrolar dramático de ano nas Laranjeiras.
De um extremo ao outro: ao decidir pela demissão de Fernando Diniz em 24 de junho, momento da temporada em que a equipe estava afundada na lanterna da Série A, a diretoria do Fluminense optou por uma via conservadora de reposição, apostando no veterano Mano Menezes, conhecido por suas ideias de jogo mais convencionais e pragmáticas. Este “choque de ordem” até mudou animicamente o ambiente nas Laranjeiras, mas a mudança radical de filosofia de futebol, implementada com a temporada em andamento, acabou sendo fatal para o Tricolor nos jogos eliminatórios.
Pressionado pelo cenário desolador no Brasileirão e com uma nova identidade ainda em construção, o Fluminense foi presa fácil no mata-mata da Copa do Brasil e da Copa Libertadores, dando adeus ao sonho de conquistar mais um troféu além da Recopa em 2024. Agora, com apenas seis jogos remanescentes no calendário do clube até o fim da temporada, podemos dizer que o torcedor tricolor tem apenas dois desejos: os 45 pontos e a reformulação geral para 2025.
Fonte: 90min
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