Kenneth Law, o ex-cozinheiro canadense de 60 anos acusado de vender “kits” e orientar pessoas em sofrimento sobre como tirar a própria vida, declarou-se culpado nesta sexta-feira (29) de 14 acusações de assistência ao suicídio. A confissão, feita em um tribunal ao norte de Toronto, é parte de um acordo que resultou na retirada das acusações de homicídio contra ele, gerando indignação entre famílias de vítimas ao redor do mundo.
Desde sua prisão em 2023, os detalhes sobre os fóruns online onde Law supostamente operava provocaram uma onda de choque global. Ele teria enviado pacotes a centenas de pessoas em dezenas de países, tornando-se alvo de investigações policiais nos Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Austrália e Nova Zelândia, além do Canadá.
A notícia de que Law não será julgado por homicídio no Canadá decepcionou profundamente algumas famílias. David Parfett, cujo filho Thomas, de 22 anos, morreu em 2021 utilizando materiais supostamente fornecidos por Law, expressou sua frustração à AFP. “Se Kenneth Law não tivesse dado instruções detalhadas sobre a forma como cometer suicídio, meu filho provavelmente estaria vivo, então, para mim, é um assassinato”, afirmou Parfett, que defende uma legislação mais rigorosa para combater espaços online que incentivam a automutilação.
Leonardo Bedoya, pai de Jeshennia Bedoya López, que morreu aos 18 anos em 2022 supostamente com a ajuda de Law, também criticou a decisão. Em declarações à emissora canadense CTV, Bedoya disse estar “muito irritado” e qualificou Law como “um assassino. Um assassino em série. Ele deve ser tratado como um”. Especialistas jurídicos, como Robert Currie, professor de direito na Universidade Dalhousie, apontam que os promotores que buscavam um julgamento por homicídio se depararam com uma “brecha” legal na legislação canadense, que não estabelece claramente se o homicídio é um crime distinto da incitação ao suicídio.
Apesar da retirada das acusações mais graves, a assistência ao suicídio é um crime sério no Canadá, e Law pode enfrentar uma pena de 10 a 20 anos de prisão. Sua sentença será anunciada em uma audiência que deve ocorrer em setembro, quando o tribunal ouvirá depoimentos relacionados às vítimas, incluindo as 14 mortes canadenses às quais ele agora responde. Thomas Parfett, por exemplo, não faz parte desses 14 casos, sendo do Reino Unido, onde cerca de 100 suicídios estão potencialmente ligados aos fóruns de Law.


