A realidade de quem cuida de uma pessoa com deficiência em Mato Grosso do Sul raramente se alinha com as exigências do mercado formal de trabalho. A rotina intensa de consultas médicas, terapias e demandas diárias de cuidado frequentemente afasta mães e pais cuidadores das oportunidades de emprego, gerando uma dependência financeira que pode se estender por décadas. É nesse cenário que o projeto Empreende Famílias Atípicas, uma iniciativa do Governo do Estado em parceria com o Sebrae/MS, surge como um pilar de apoio, oferecendo qualificação e incentivando o empreendedorismo como alternativa de geração de renda.
Criado em 2025, o programa entrou em uma fase de expansão significativa neste ano. Em 2026, as ações já percorreram municípios como Água Clara, Camapuã, Costa Rica e São Gabriel do Oeste, levando escuta qualificada, orientação técnica e formação empreendedora diretamente às famílias atípicas do interior. Essa nova etapa, coordenada pela Secretaria de Estado da Cidadania e pela Subsecretaria de Políticas Públicas para Pessoa com Deficiência, reflete o compromisso de descentralizar o apoio e alcançar quem mais precisa.
A subsecretária de Políticas Públicas para Pessoa com Deficiência, Malu Fernandes, destaca que a proposta nasceu das necessidades apresentadas pelas próprias famílias atendidas pela rede estadual. “Essas famílias encontram muitas dificuldades para ingressar e permanecer no mercado formal de trabalho. Quando uma criança precisa ser internada ou passar por procedimentos de saúde, é a mãe ou o pai cuidador que precisa estar presente. Isso acaba criando barreiras para a contratação formal”, explica Malu. “O empreendedorismo surge, então, como uma alternativa para que essas pessoas possam trabalhar e gerar renda sem abrir mão dos cuidados que seus filhos necessitam”.
A dificuldade de inserção profissional é uma realidade dolorosa para muitos cuidadores, especialmente mães, cuja dedicação integral ao cuidado restringe as possibilidades de autonomia financeira por anos a fio. “O que chega para nós na Subsecretaria são histórias de mulheres que dedicaram toda a vida aos filhos, muitas vezes sobrevivendo exclusivamente com benefícios sociais. São mães que passaram 20 anos sendo cuidadoras em tempo integral e que não tiveram oportunidade de desenvolver uma profissão ou construir uma fonte própria de renda”, relata Malu. “O empreendedorismo busca mudar esse cenário e mostrar que elas também podem construir autonomia e ter independência financeira”.
A eficácia do Empreende Famílias Atípicas é evidenciada por casos como o de Costa Rica. Durante um reencontro com participantes atendidas em 2025, a equipe da Secretaria de Estado da Cidadania pôde constatar a transformação: mulheres que converteram atividades domésticas em fontes de renda, vislumbrando um futuro com novas possibilidades. Juliani Benite Tigre, proprietária de uma loja de roupas, é um desses exemplos inspiradores, mostrando como o projeto tem sido fundamental para o desenvolvimento pessoal e financeiro dos cuidadores em Mato Grosso do Sul.


