Resíduos de pólvora na mão de médico derrubam tese de suicídio de fisioterapeuta
Perícia por microscopia eletrônica encontrou vestígios de disparo apenas na mão do cardiologista, enquanto a vítima não tinha resíduos, confirmando feminicídio.
Laudo aponta resíduos de tiro na mão do médico
Exames realizados durante a investigação do caso Fabiola Marcotti identificaram partículas microscópicas de pólvora na mão direita de João Jazbik Neto, de 78 anos. A análise, feita por MEV (Microscopia Eletrônica de Varredura), é considerada o “padrão-ouro” para detectar resíduos de disparo. O resultado indicou que o médico efetuou um tiro ou manuseou a arma. Já nas mãos da fisioterapeuta, a perícia não encontrou vestígios, desmontando a versão inicial de que ela teria atirado contra si mesma. O pesquisador Guilherme Cioccia Neves, da UFMS, explica que o método associa a análise de formato característico das partículas com a composição química – chumbo, bário e antimônio –, garantindo alta precisão.
Revólver e projétil ajudam a reconstruir o disparo
Os peritos examinaram o revólver Smith & Wesson calibre .357 encontrado na cena. Além da arma, um projétil alojado atrás de um quadro foi submetido a confronto balístico, confirmando que partiu do mesmo revólver. A análise genética mostrou que o projétil continha vestígios biológicos de Fabiola, indicando que atravessou o corpo antes de atingir a parede. A trajetória do disparo foi reconstruída manualmente e com scanner 3D, apontando que o tiro veio de uma região à frente do sofá.
Os cálculos estimaram o ângulo do disparo entre 31,6 e 47,8 graus. Na maior inclinação, a arma estaria a cerca de 40 centímetros do chão se estivesse próxima à cabeça da vítima. Para a perícia, essa dinâmica era incompatível com a vítima sentada, em pé ou sentada no sofá com a arma apontada para a própria cabeça.
Três simulações não reproduzem o suicídio
A perícia testou três possibilidades para verificar se Fabiola poderia ter efetuado o disparo e terminado na posição encontrada. Nenhuma foi compatível com todos os vestígios. Confira as inconsistências:
- Primeira simulação: vítima em pé, dispara, deixa a arma cair e cai sobre ela. A trajetória da bala, a altura do impacto no quadro e as manchas de sangue não corresponderam.
- Segunda e terceira simulações: posição do corpo, das mãos e da arma não coincidiram com a dinâmica real da cena.
Em nenhum dos cenários foi possível reproduzir integralmente o que ocorreu no quarto.
Vestígios de sangue e adulteração da cena
As manchas de sangue na face e no pescoço de Fabiola indicaram que o corpo foi movido após o sangue ter sido projetado. O padrão de escorrimento mostrava que em algum momento a parte superior do corpo ficou mais baixa que a inferior. Também foram encontradas manchas nas paredes sugestivas de múltiplos golpes.
Os ferimentos no rosto não apresentavam características de disparo encostado ou próximo ao corpo. Um afundamento na lateral esquerda da face foi considerado incompatível com um tiro autoinfligido. A arma sob o corpo tinha fios de cabelo no cano e no tambor, situação atípica que indica manipulação intencional.
Esses elementos levaram a investigação a apontar que o local foi modificado para simular um suicídio. Por isso, João Jazbik Neto foi indiciado também por fraude processual. Ele está preso e responderá por feminicídio.
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