Bets respondem por um terço das receitas comerciais da Série A
O impacto das casas de apostas no futebol brasileiro é uma preocupação real para os clubes da elite. Levantamento da consultoria Convocados, obtido com exclusividade, mostra que as bets são responsáveis por um terço de toda a receita comercial dos times da Série A.
Em 2025, os patrocínios das empresas de apostas somaram R$ 1,03 bilhão. O valor faz parte dos R$ 3,069 bilhões arrecadados com patrocínios pelos 20 clubes. O montante total de receitas comerciais praticamente dobrou em quatro anos, mas é a dependência das bets que acende o alerta.
Impacto das bets no orçamento dos clubes
Segundo o relatório, o receio vem da possibilidade de o governo Lula restringir ou até proibir o patrocínio de casas de apostas. Uma sinalização nesse sentido fez as entidades esportivas reagirem com um manifesto que alerta para o “fim do futebol brasileiro”.
Os números mostram uma escalada rápida:
- 2021: receita comercial de R$ 1,3 bilhão
- 2022: alta de 13,8%, para R$ 1,5 bilhão
- 2023: crescimento de 29%, chegando a R$ 1,9 bilhão
- 2025: patamar atual de R$ 3 bilhões
A diferença entre 2021 e 2025 representa um salto de 133%.
Patrocínio máster e publicidade
O impacto não se limita ao patrocínio de camisa. As casas de apostas também investem em placas de beira de campo, naming rights de campeonatos e canais de transmissão. Em 2025, 19 dos 20 clubes da Série A tinham alguma parceria com o setor. Em 2026, o número caiu para 13.
“Independentemente do efeito inflacionário que essas receitas causaram nos últimos anos, teríamos um impacto muito forte”, avalia o economista Cesar Grafietti, que assina o levantamento da Convocados.
Dívidas e risco para o futebol
A possível saída das bets também reacende o debate sobre o endividamento. A dívida tributária dos clubes é estimada em R$ 10 bilhões. O governo estuda um plano de refinanciamento nos moldes do Profut, com alongamento de prazos e descontos em juros, sem perdão do valor principal.
O tema ganha contornos eleitorais. O presidente Lula tem dito em palanques que o governo não vai se curvar à pressão do setor. Por outro lado, a reportagem apurou que o mercado já procura o governo para apresentar sugestões e alternativas.
O analista de mercado, que preferiu não se identificar, resume o momento: “Se não estamos falando do fim do futebol, teremos um chacoalhão importante”.
Posição do mercado e do governo
A restrição às bets também mexe com o calendário. Em 2025, clubes e federações assinaram contratos de patrocínio com validade até 2027. Um rompimento unilateral poderia gerar disputas judiciais bilionárias.
A esperança do setor é que a regulamentação seja feita com cautela, como defende o economista: “Regras claras e proporcionais são fundamentais para proteger o público e consolidar um mercado seguro e sustentável”.
Enquanto isso, os clubes já começam a sentir os efeitos da queda de patrocínios. No início desta temporada, diversas equipes da Série B perderam patrocinadores que pagavam valores acima do mercado.
O manifesto enviado aos poderes foi endossado por 16 dos 20 clubes da Série A. Athletico, Coritiba, Remo e Bahia ficaram de fora. Na Série B, o Cuiabá foi a voz mais ativa contra as casas de apostas.
“Estamos falando de clubes, federações, confederações, estádios e demais espaços ligados ao futebol, que já trabalham com contratos de patrocínio de médio e longo prazo. O mercado de apostas se tornou uma fonte relevante de receita para o futebol, então qualquer restrição à exposição dessas marcas precisa ser analisada também sob a ótica da sustentabilidade financeira de todos os envolvidos, do cumprimento dos contratos já firmados e, consequentemente, da segurança jurídica”, diz o manifesto.
O alerta final do setor é de que o futebol não vai quebrar sem as bets, mas a transição pode ser dolorosa. “Vai ser uma forma de reduzir os custos. A gente vive uma inflação de salário, inclusive na Série B, que foi causada pelos investidores que compraram os direitos de transmissão e também pelas bets. Não vai ser a falta de bets que vai falir o futebol brasileiro”, finaliza o economista.
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