Conversas revelam esquema de delegado com tráfico para desviar cocaína
O documento do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) que embasou a Operação Infiltradas revela um esquema organizado entre policiais civis e traficantes para desvio de cocaína. O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, conhecido como ‘Careca’, é apontado como comandante do esquema, que utilizava a própria Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) como ponto de fornecimento.
Diálogos revelam dinâmica de pagamento e entrega
Conversas entre traficantes ocorridas em 2022 mostram que os policiais impunham regras rígidas para a liberação de novas cargas. Em uma troca de mensagens, o traficante Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’, afirmou a Edimilson da Silva Santos que não conseguiu retirar mais drogas da Denar por causa de débitos anteriores.
“E aí, mané, deixa eu falar para você. Oh, viad*, cê não vai mandar o bagulho aí, não? O cara tá me cobrando aqui, mané, tá ligado? Ele quer trazer mais aqui, mas tem que acertar o bagulho”, teria dito Lucas. Em outro áudio, ele cobrou o pagamento até o dia seguinte, sob o risco de não conseguir mais cargas naquele ano: “Amanhã é o último dia para tirar lá. Se não pagar, não conseguimos mais, aí só no ano que vem. Preciso pegar ’30 de branca’”.
Segundo o Gaeco, os policiais mantinham estoque contínuo de drogas apreendidas, garantindo pronta entrega a compradores que quitassem as remessas anteriores.
Preocupação com férias dos policiais
Em dezembro de 2022, ‘LK’ enviou áudios destacando a urgência do pagamento devido ao recesso dos agentes. “Os cara vai entrar de férias, mané, essa semana, acho que quinta-feira eles entra de férias”, afirmou. Para o Gaeco, a referência ao período de férias confirma que os fornecedores eram policiais lotados na Denar.
Operação Infiltrados: mandados e investigação
A Operação Infiltrados, deflagrada em outubro de 2025, cumpriu:
- 24 mandados de prisão preventiva
- 2 mandados de prisão temporária
- 38 mandados de busca e apreensão
As buscas ocorreram em Campo Grande, Dourados e Terenos. A investigação teve origem nas operações Traquetos e Blindspot, que já apontavam a participação de policiais no desvio de drogas.
Modus operandi: omissão e subtração de entorpecentes
De acordo com o MPMS, o esquema consistia em omitir parte da droga nos registros formais ou subtrair entorpecentes diretamente do depósito da delegacia. A cocaína desviada era repassada a traficantes, que a reintroduziam no mercado ilegal. Os policiais se valiam de suas funções para atuar como fornecedores do tráfico.
Três mundos num só estado
O MS é um verdadeiro cruzamento da natureza. O território divide-se em três biomas distintos: o Cerrado domina a maior parte (61%), o Pantanal cobre a zona oeste (25%) e a Mata Atlântica ainda resiste nas áreas a leste e sul (14%).
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