O treinamento do Exército que resultou na morte do soldado Vinicius Ibañez Riquelme, de 19 anos, foi marcado por condições severas e abusivas, incluindo fome, sede extrema e humilhações.
A decisão judicial, que recebe denúncia contra 11 militares e também busca responsabilizar o coronel Kenji Alexandre Nakamura, comandante do Exército em Bela Vista, destaca as graves falhas na condução do treinamento.
O juiz federal Jorge Luiz de Oliveira da Silva, da Justiça Militar, evidenciou a privação de água e alimentos, além de práticas punitivas abusivas. Segundo o documento, o treinamento realizado de 22 a 26 de abril em Bela Vista/MS expôs os recrutas a condições extremamente adversas. O soldado Vinicius, junto com outros 169 recrutas, sofreu desidratação severa e exaustão devido à falta de água e alimentos, além de exercícios físicos intensos.
Durante os últimos dias do treinamento, Vinícius apresentou sinais de grave cansaço e desidratação, além de ter sido punido com privação de alimentação. Ele também sofreu ferimentos no rosto, possivelmente devido a uma queda. Relatos de outros recrutas indicam maus-tratos e agressões físicas e morais, incluindo a utilização de cordas para puxar os soldados, rastejos punitivos e tarefas degradantes.
A decisão judicial ressalta que o treinamento descumpriu a ordem que deveria garantir uma instrução sem comportamentos arbitrários e indignantes. A ausência de supervisão adequada e a falta de um médico durante o exercício foram destacados como fatores que contribuíram para o trágico evento. A sargento encarregada do atendimento médico foi citada por desencorajar os recrutas a buscar ajuda.
Foram denunciados 11 militares, incluindo o 2º tenente Thiago Mauri Marçal e os 3ºs sargentos Victor Augusto Albuquerque Barros, Gustavo Doré Gonçalves, Arthur Castelani Lopes e Breno Gonçalves Salles. A Justiça Militar investiga as responsabilidades dos envolvidos no caso.
O soldado Vinícius, que estava no Exército há menos de dois meses, participou do treinamento no campo e ficou incomunicável. Ele foi transferido para a Santa Casa de Campo Grande, onde faleceu no dia 27 de abril. O Comando da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, com sede em Dourados, não respondeu aos contatos até o momento da publicação.


