Em Corumbá, valor das áreas para pastagem subiu 62,7%, puxando valorização histórica em meio à expansão florestal e agroindustrial
O mercado de terras agrícolas em Mato Grosso do Sul segue em ritmo acelerado de valorização. Impulsionado pela entrada de capital estrangeiro, principalmente da indústria de papel e celulose, pelo avanço da Rota Bioceânica e pela valorização das commodities como soja e milho, os preços das áreas rurais do estado registraram altas expressivas neste início de 2025.
Em Corumbá, que já foi referência na pecuária estadual, o preço das terras para pastagem saltou 62,7% no primeiro quadrimestre em comparação com o mesmo período de 2024, segundo levantamento da Scot Consultoria. O município lidera o ranking de valorização entre 10 principais polos pecuaristas do estado. Três Lagoas (20,7%) e Aquidauana (17,7%) também apresentaram altas relevantes.
Nas áreas de lavoura, o maior crescimento foi em Bodoquena (38,8%), seguida por Dourados (37,1%) e Coxim (21,8%).
Papel e celulose puxam investimentos bilionários
O setor florestal tem sido o principal motor desse boom. Apenas em 2024, o estado atraiu cerca de R$ 50 bilhões em investimentos, com destaque para duas gigantes do setor: a Suzano, que está construindo em Ribas do Rio Pardo a maior fábrica de celulose do mundo, e a chilena Arauco, que erguerá uma unidade em Inocência. Juntas, as duas devem operar mais de 1 milhão de hectares de florestas de eucalipto, segundo estimativas.
Com isso, a área de eucalipto em MS saltou de 300 mil hectares em 2009 para 1,4 milhão em 2023, e pode chegar a 2 milhões até 2030, tornando o estado o maior produtor do Brasil.
Rentabilidade supera aplicações financeiras
Os dados impressionam: o valor médio do hectare para pecuária subiu de R$ 3,8 mil (2010) para R$ 22 mil (2024) – uma valorização de 476%. Já as terras para lavoura foram ainda além: de R$ 7,3 mil para R$ 60,9 mil no mesmo período – alta de 730%, segundo o corretor Pedro Travain. Comparado a isso, aplicações como a poupança (156%) ou títulos públicos (126%) ficaram bem atrás.
Culturas em alta e efeitos da Rota Bioceânica
Além da celulose, o crescimento de outras culturas também impulsiona o mercado. O amendoim superou o algodão em área plantada e o arroz e o feijão também cresceram. A Rota Bioceânica, que vai ligar o Brasil ao Pacífico passando por Mato Grosso do Sul, já valoriza regiões como Porto Murtinho.
Apesar da disparada, os especialistas avaliam que as terras sul-mato-grossenses ainda estão abaixo dos valores de estados como Paraná e São Paulo, o que abre margem para mais crescimento.
Estrangeiros ampliam presença no campo
Outro fator decisivo é a crescente compra de terras por estrangeiros. Segundo o advogado Lucas Brenner, mesmo com os limites legais de 25% por município e 10% por nacionalidade, muitos contratos burlam a legislação. Em municípios como Inocência e Água Clara, a presença estrangeira já ultrapassa 30% a 40% das terras agrícolas. Ele aponta falhas na fiscalização e diz que o Incra depende das informações que chegam de cartórios e declarações dos próprios proprietários.
O Incra, por sua vez, afirma não ter registros de irregularidades no estado, já que não recebe todas as informações necessárias para monitorar adequadamente as transações.
A valorização das terras, embora positiva para quem investe, também acende alerta sobre o impacto nos custos dos alimentos e no acesso à terra para pequenos produtores e agricultores familiares.


