Deputado Paulo Corrêa Mencionado em Investigação do Gaeco

O relatório, obtido por apuração jornalística, aponta que interlocutores do esquema tratavam Corrêa como um dos deputados com capacidade para abrir portas em municípios, facilitando a venda de materiais da Editora Avante. As menções ao parlamentar surgem em análises de mensagens de WhatsApp, predominantemente trocadas entre Ed Carlo Britto Burgatt, então coordenador estadual de Regulação Assistencial da Secretaria de Estado de Saúde (SES/MS) e um dos presos na Operação Gutenberg, e Gabriel Taquino de Paula, advogado identificado como ‘vendedor’ da Editora Avante.

O Ministério Público, em registro nos autos, ressaltou que as referências a agentes com foro por prerrogativa de função, como os deputados estaduais, ainda não reúnem elementos suficientes para justificar a abertura de uma investigação formal contra eles.

Detalhes dos Registros nas Conversas

Conforme o relatório, em 23 de maio de 2022, Ed Carlos informa Gabriel Taquino que uma pessoa identificada apenas como ‘Julio’, apontada como assessor dos deputados Paulo Corrêa e Jamilson Name (PP), entraria em contato para discutir municípios que ambos teriam ‘e Junior não’, em uma possível referência a um contrato com a prefeitura de Bonito (MS). ‘Junior’ seria o ex-prefeito de Fátima do Sul e assessor de Jamilson, Júnior Vasconcelos.

Uma semana depois, em 30 de maio de 2022, o Gaeco registrou nova conversa: ‘conversam sobre a interferência que os deputados Paulo Corrêa e Jamilson estariam fazendo junto a alguns municípios visando auxiliar os interlocutores Ed Carlos e Gabriel Taquino em contratos com as cidades’. Já em 2023, o deputado volta a ser citado em uma sequência de mensagens sobre a busca por apoio político para fechar contratos com prefeituras. O relatório sumariza: ‘em vários dias de 2023 conversam sobre buscar o apoio de Deputados Estaduais, citando Jamilson, Paulo Corrêa e Mara Caseiro, fins de efetivar contratação com vários municípios para Editora Avante’.

Em conversas privadas, Gabriel Taquino escreveu, em 2 de março de 2023: ‘marca com Paulo Corrêa, para nos ajudar a fazer dinheiro’. Em 3 de março, ele insiste: ‘Vamos no paulo Corrêa preto, a hora é agora’, ao que Ed Carlos respondeu que iria ‘marcar com ele’. Em 20 de abril e em 10 de maio de 2023, o nome do deputado reaparece em mensagens como ‘vou pedir ajuda para o paulo Corrêa’ e ‘alinha com o paulo Corrêa’, esta última associada a municípios como Miranda, Angélica, Sidrolândia e Deodápolis.

É importante notar que nenhum valor em dinheiro é atribuído nominalmente a Paulo Corrêa nos trechos do relatório analisados. Diferentemente, o deputado Jamilson Name é associado a percentuais e a um pagamento específico de R$ 52.217,75 no mesmo documento.

Declínio de Competência por Foro Privilegiado

A menção a parlamentares nas conversas impactou diretamente a tramitação do processo. Em 5 de agosto de 2025, os promotores de Justiça do Gaeco Moisés Casarotto, Tiago Di Giulio Freire, Antenor Ferreira de Rezende Neto e Gerson Eduardo de Araújo solicitaram o declínio de competência para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. A justificativa foi que o relatório ‘revelou agora, no curso da investigação, indícios do envolvimento de agentes públicos com foro por prerrogativa de função nos crimes investigados, notadamente Deputados Estaduais e Prefeitos’.

O pedido foi acatado pelo juiz Deyvis Ecco, da 2ª Vara Criminal de Campo Grande, em decisão de 7 de agosto de 2025. O magistrado determinou a remessa de todo o processo ao TJMS, citando a Constituição Federal e a Constituição Estadual, que atribuem ao Tribunal de Justiça a competência para julgar deputados estaduais e prefeitos. A legislação prevê que qualquer indício envolvendo autoridade com foro privilegiado obriga o encaminhamento do caso ao tribunal competente, sob pena de nulidade dos atos subsequentes.

Em manifestação posterior, já remetida à Procuradoria-Geral de Justiça, o Ministério Público reconheceu que as citações aos parlamentares ‘ainda não reúnem elementos suficientes’ para justificar a abertura de um procedimento investigatório específico contra eles no Tribunal de Justiça, sendo necessário prosseguir a apuração em primeira instância quanto aos demais investigados sem foro.

Quem é Paulo Corrêa

Paulo José Araújo Corrêa, 68 anos, é engenheiro civil e cumpre seu oitavo mandato consecutivo como deputado estadual em Mato Grosso do Sul. Eleito pela primeira vez em 1994 (assumindo em 1997), já integrou diversas legendas, incluindo PFL, PTB, PL, PR, PSDB e, atualmente, PL. Nas eleições de 2022, foi reeleito com 49.184 votos, obtendo registros em todos os 79 municípios do estado.

Antes de ingressar na Assembleia Legislativa, Corrêa atuou como secretário de Estado de Habitação e Desenvolvimento Urbano no governo Pedro Pedrossian. Em fevereiro de 2019, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa, cargo que ocupou por dois biênios consecutivos (2019-2022), período que abrange as primeiras conversas registradas pelo Gaeco, em maio de 2022. Atualmente, ocupa a 1ª Secretaria da Mesa Diretora da ALEMS.

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