A Polícia Federal (PF) apresentou indícios de que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, teria encomendado à assessoria da instituição financeira a elaboração de uma emenda que foi posteriormente apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). O objetivo seria beneficiar os interesses do banco. Em diálogos interceptados, Vorcaro teria comentado que a emenda “saiu exatamente como mandei”.
O senador foi alvo de busca e apreensão em 7 de maio de 2026, como parte de uma nova fase da Operação Compliance Zero, que se concentra no núcleo político do suposto esquema.
A defesa de Ciro Nogueira emitiu um comunicado repudiando “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.
Segundo a PF, o texto da emenda apresentada por Nogueira coincide integralmente com o elaborado pela assessoria do Banco Master. Mensagens colhidas no celular de Daniel Vorcaro indicam que ele determinou a entrega do documento em um envelope no endereço do senador.
A emenda, apresentada por Ciro Nogueira em uma PEC que tratava do regime jurídico do Banco Central, propunha elevar o limite de cobertura individual do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Tal medida beneficiaria diretamente o Banco Master, que utilizou a captação de pessoas físicas via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) para alavancar seu patrimônio. A emenda, contudo, não foi aprovada.
A PF rastreou o processo de confecção da emenda com base nos diálogos do celular do banqueiro. O texto foi elaborado pela assessoria do Master e enviado por um funcionário ao WhatsApp de Vorcaro. Posteriormente, o controlador do banco ordenou a impressão e entrega do documento em sua residência. Para a PF, essa ação sugere que Ciro Nogueira tomou medidas concretas para favorecer Vorcaro no Senado em troca de pagamentos de propina, configurando crime de corrupção.
Na decisão que autorizou a operação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça reproduziu os argumentos da PF. “A representação descreve, de modo específico, que o senador apresentou a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 com conteúdo produzido no âmbito do Banco Master, encaminhado por preposto de VORCARO, impresso e entregue em envelope endereçado a ‘Ciro’ em seu endereço residencial, tendo o texto parlamentar reproduzido, ‘de forma integral’, a versão previamente preparada pela assessoria do banco”, consta na decisão.
O documento prossegue: “Também há notícia de circulação, a partir de sua residência, de minutas de outros projetos legislativos de interesse do particular, posteriormente remetidas ao gabinete parlamentar. No plano patrimonial, aponta-se a percepção de vantagens reiteradas, materializadas por pagamentos mensais, aquisição societária com expressivo deságio, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de elevado valor, além de indícios de recebimento de numerário em espécie”.
A PF citou diálogos em que Vorcaro comenta o sucesso na apresentação da emenda à PEC. O banqueiro teria afirmado a um interlocutor que o texto apresentado por Ciro Nogueira foi um sucesso. A investigação também aponta que o senador teria recebido pagamentos mensais, aquisições societárias com deságio e custeio de despesas pessoais.
A 5ª fase da Operação Compliance Zero mira o esquema financeiro e o envolvimento do senador. Outras notícias relacionadas ao tema podem ser encontradas em: Operação Compliance Zero: PF Detalha Pagamentos de R$ 500 Mil Mensais a Senador Ciro Nogueira.


