Em um movimento histórico e de alta voltagem geopolítica, os Estados Unidos indiciaram nesta quarta-feira (20 de maio de 2026) o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, por seu suposto papel na derrubada de dois aviões em 1996. Esta é a primeira vez que uma alta autoridade do regime comunista cubano é formalmente acusada na justiça de seu vizinho e tradicional adversário, marcando um novo capítulo na já conturbada relação bilateral.
As acusações contra Castro, que à época do incidente exercia a função de Ministro da Defesa, incluem assassinato de quatro pessoas, conspiração para matar cidadãos americanos e destruição de aeronaves. A notícia gerou uma imediata e veemente reação de Havana. O atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, denunciou no X (antigo Twitter) a ação como “política, sem qualquer base jurídica”, alegando que busca “engrossar o dossiê que fabricam para justificar o desatino de uma agressão militar a Cuba”.
Em Miami, perante a influente comunidade de origem cubana, o procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, reafirmou o compromisso de Washington com seus cidadãos. “Os Estados Unidos não esquecem seus cidadãos”, declarou Blanche, expressando a expectativa de que Castro “acabe atrás das grades”, o que sublinha a seriedade da perseguição legal.
O incidente em questão ocorreu em 24 de fevereiro de 1996, quando dois caças MiG cubanos interceptaram e derrubaram, no Estreito da Flórida, duas aeronaves desarmadas da organização “Hermanos al Rescate”. O grupo, sediado na Flórida, auxiliava barqueiros cubanos a chegar aos EUA. Os aviões caíram em águas internacionais, segundo a versão americana, resultando na morte dos quatro tripulantes. Cuba, por sua vez, mantém que agiu “em legítima defesa, dentro de suas águas jurisdicionais”, conforme reiterado por Díaz-Canel.
A perseguição a este caso por décadas pela comunidade cubano-americana na Flórida, um dos bastiões eleitorais do presidente Donald Trump, culmina agora com esta acusação. As alegações contra Castro intensificam a forte pressão que Washington já exerce sobre a ilha, submetida a um embargo desde 1962 e atualmente devastada por uma severa crise econômica e energética.
A administração Trump tem alternado ameaças com ofertas de diálogo, uma estratégia já vista com a Venezuela. Em 29 de janeiro deste ano, Trump assinou um decreto que ameaça impor tarifas a países que vendem petróleo a Cuba, o que, na prática, deixou a ilha sem combustível e com suas reservas esgotadas. Paralelamente, os Estados Unidos oferecem 100 milhões de dólares (equivalente a 504 milhões de reais) em alimentos e medicamentos, a serem distribuídos diretamente ao povo cubano pela Igreja Católica ou grupos de caridade.
Apesar da retórica dura, Trump minimizou a possibilidade de uma escalada militar. “Não haverá uma escalada, não é preciso. Está caindo aos pedaços. Realmente perderam o controle de Cuba”, afirmou o presidente a jornalistas, sugerindo uma crença na implosão interna do regime cubano como resultado das pressões econômicas.


