Uma onda de protestos se intensificou drasticamente na Bolívia nesta semana, com La Paz cercada por bloqueios de estradas desde o início de maio. A capital enfrenta uma severa escassez de alimentos, medicamentos e combustível, mergulhando o país em uma complexa convulsão social. Seis meses após assumir a presidência em novembro de 2025, o líder de centro-direita Rodrigo Paz enfrenta um cenário de múltiplas reivindicações, interesses conflitantes e erros governamentais, em meio à pior crise econômica em quatro décadas.
Em resposta à escalada da crise, o presidente Paz advertiu na última quarta-feira que não negociará com “vândalos”, mas, em um gesto de apaziguamento, prometeu nomear ministros com “capacidade de escuta”. Seu governo, que sucedeu a duas décadas de administrações socialistas, acusa o ex-presidente Evo Morales (2006-2019) de orquestrar os protestos. Morales, foragido desde 2024 por um caso de suposta exploração de uma menor e refugiado na região cocalera de Chapare, por sua vez, denuncia um suposto plano de Washington, com apoio do governo Paz, para prendê-lo ou até matá-lo.
Os Estados Unidos, que veem em Paz um novo aliado na América Latina, manifestaram apoio ao mandatário boliviano, alertando para uma tentativa de “golpe de Estado” no país e afirmando que não permitirão que “criminosos e narcotraficantes” derrubem um líder democraticamente eleito. A crise econômica boliviana, que serve de pano de fundo para a instabilidade, é marcada pelo esgotamento das reservas de dólares, utilizadas para sustentar uma política de subsídios aos combustíveis. Pouco após assumir, Paz eliminou esses subsídios, o que dobrou o preço da gasolina e gerou indignação popular, agravada pela venda de combustível contaminado, apelidado de “gasolina lixo”, que danificou milhares de veículos.
Outro gatilho para os protestos foi o anúncio de uma lei que transformaria pequenas propriedades rurais em médias para facilitar o acesso ao crédito. Camponeses indígenas rejeitaram a proposta, temendo que suas terras pudessem acabar nas mãos de bancos e, posteriormente, de latifundiários. Prometendo estabilidade econômica e “um capitalismo para todos” em sua campanha, Paz vê o movimento de protestos se ampliar em maio, com a adesão de professores, operários e mineiros. Diante de uma inflação de 20% em 2025, a poderosa Central Operária Boliviana (COB) exige aumento salarial no mesmo percentual, enquanto professores reivindicam aposentadoria com salário integral. Com a prolongamento da crise, a demanda pela renúncia do presidente Paz se tornou central, levando o governo a denunciar, na quarta-feira, que grupos de manifestantes buscam alterar a “ordem democrática”.


